A remuneração do brasileiro alcançou o topo da série histórica. O desemprego, o piso. A carteira assinada, marca inédita. Nada disso virou narrativa nacional, e o padrão dessa ausência revela mais sobre as redações do que sobre a economia.
Comece pelos números, porque eles não pertencem a partido nenhum. São do IBGE.
O rendimento médio mensal real de todas as fontes chegou a R$ 3.367 em 2025, alta real de 5,4% sobre 2024 e o maior valor já medido desde o início da PNAD Contínua, em 2012. Quarto ano seguido de expansão. A massa salarial do trabalho alcançou R$ 361,7 bilhões por mês, 23,5% acima de 2019.
O ganho domiciliar per capita subiu para R$ 2.264, avanço de 6,9% em um ano e de 18,9% sobre o pré-pandemia. Chegou a 143 milhões o contingente com alguma receita, 67,2% da população, proporção nunca antes alcançada.
No mercado de trabalho, a desocupação média anual ficou em 5,6%, a menor de toda a série, contra 6,6% em 2024 e 11,8% em 2019. A população ocupada bateu 103 milhões. Os empregados do setor privado com carteira somaram 38,9 milhões, cerca de um milhão a mais que no ano anterior. A informalidade recuou de 39,0% para 38,1%.
E a coordenadora da pesquisa do IBGE antecipou o argumento que costuma servir para desqualificar resultados assim: a queda do desemprego não veio de desalento nem de subutilização, veio da expansão da ocupação.
Se esse conjunto tivesse aparecido sob qualquer outro governo, teria ocupado as capas por uma semana no mínimo a contar pelo total quase completo desinteresse da mídia hegemônica sobre o tema.
E antes que repitam o mantra dos economistas que nada acerta, o que aconteceu não foi sorte, foi escolha de governo.
Estatística boa não cai do céu. Ela é o efeito observável de decisões que alguém tomou, e que poderiam ter sido outras.
A retomada da valorização do salário mínimo com ganho acima da inflação recompôs o piso de dezenas de milhões de remunerações indexadas, entre vencimentos, aposentadorias, pensões e benefícios assistenciais. Isso não é gesto simbólico: é a variável que chega mais rápido ao orçamento de quem ganha pouco.
A reconstrução do Bolsa Família em novo patamar elevou o valor médio dos programas sociais de R$ 508 em 2019 para R$ 870 no ano passado, salto de 71,3%. Estudo do Ipea divulgado em novembro atribui a esses dois vetores, trabalho e transferências, praticamente toda a redução recente da desigualdade e da miséria, em proporções semelhantes.
Veio ainda a medida de maior alcance distributivo desde o Plano Real. A Lei 15.270, de 2025, sancionada em novembro e vigente desde 1º de janeiro deste ano, isentou do Imposto de Renda quem recebe até R$ 5 mil mensais e criou desconto progressivo até R$ 7.350, com tributação mínima sobre altas rendas como compensação. Mais de 15 milhões de contribuintes alcançados, dos quais mais de 10 milhões deixaram simplesmente de pagar.
A propósito: o texto passou por unanimidade nas duas Casas. Um Congresso adverso votou junto porque a proposta era popular e tecnicamente sustentada. Também isso é fruto de condução política, e também não rendeu primeira página.
Acrescente a inflação de 2025 fechada em 4,26%, a mais baixa desde 2018 e dentro do teto da meta, com a alimentação no domicílio desacelerando de 8,23% para 1,43%. Salário subindo com preço cedendo é justamente a combinação que a teoria descreve como difícil de obter.
Quem mais avançou nessa escala de ganhos foi quem menos tinha. Aqui está o ponto que deveria interessar a quem escreve do Piauí e do Nordeste.
Frente a 2019, a remuneração habitual do trabalho cresceu 19,8% no Norte e 19,5% no Centro-Oeste, contra 7,2% no Sudeste, a menor variação do país. No recorte domiciliar per capita, o Norte avançou 33,6% e o Nordeste 23,8%, enquanto o Sudeste ficou em 14,1%.
Há convergência regional em curso, e ela está medida. Não se trata de uma retórica de palanque com finalidade eminentemente eleitoral.
O índice de Gini do rendimento domiciliar per capita está em 0,511, contra 0,543 em 2019. O do trabalho, em 0,491, abaixo do máximo de 0,506 registrado nos dois anos que antecederam a pandemia. A desigualdade brasileira segue vergonhosa, mas encolheu, e isso não ocorre por acaso demográfico.
No Piauí, a média do trabalho chegou a R$ 2.561. Continua quase mil reais atrás do valor nacional de R$ 3.560, e a desocupação estadual, de 8,0%, ainda figura entre as mais altas. Mesmo assim, o estado subiu acima da média do país no período, e a direção importa mais do que a fotografia.
Por que isso não virou pauta da imprensa majoritária?
Registre-se com precisão, porque acusação genérica não convence: houve publicação. O IBGE divulgou, as agências reproduziram, o Poder360 chegou a fazer infográfico. O problema não está na divulgação. Está na pauta.
Publicar é sair uma vez na editoria de economia numa sexta-feira. Pautar é virar chamada de capa, render entrevista, gerar segundo dia de cobertura, entrar no telejornal, virar assunto de mesa. Foi o que faltou.
E faltou por um conjunto de razões que operam juntas e não são aleatórias.
O reflexo do “sim, mas”. Todo indicador favorável chega à redação já acompanhado do contraponto obrigatório. Salário no topo vem com o parágrafo do endividamento. Desemprego no piso vem com a ressalva da informalidade. O contraponto é legítimo, e eu mesmo o faço adiante. Ilegítima é a assimetria: quando o resultado é ruim, o contexto favorável raramente ganha o mesmo destaque.
A lente do mercado. A editoria de economia da grande imprensa lê o país pelo painel do investidor. Nesse painel, mercado de trabalho aquecido não é família ganhando mais, é risco inflacionário. Massa salarial cheia não é gente comendo melhor, é pressão sobre a Selic. O mesmo fato que na vida real alivia, na página vira alerta.
A ausência de conflito. Boa notícia agregada não denuncia ninguém, não abre investigação, não tem vítima nem vilão. Morre por falta de atrito narrativo, num ambiente em que o atrito é o que sustenta audiência.
O viés editorial refratário a este governo, e é preciso dizer com todas as letras. Não se trata de conspiração de sala fechada. Trata-se de cultura de redação e alinhamento de incentivos. Manifesta-se na escolha do que merece chamada, na temperatura do adjetivo, na pressa de checar a estatística boa e na leniência com a ruim. Quem acompanha cobertura econômica há vinte anos reconhece o padrão sem precisar de teoria.
O formato do próprio gráfico. Quando a curva ganha os rostos dos presidentes embaixo, deixa de ser medição e vira placar. Aí cada lado guarda o pedaço que serve e descarta o resto. A informação, que era de todos, some.
O que falta, e por que admitir isso fortalece o argumento?
Não escrevo boletim de governo. Escrevo porque a base empírica é sólida, e base sólida aguenta ressalva sem nenhum tipo de problema, aqui se escreve sobre um(ns) fato(s).
O endividamento das famílias chegou a 80,4% em março deste ano, o maior da série da Peic desde 2010, com 29,7% da receita mensal comprometida. Parte do avanço real foi capturada por juros antes de virar consumo, e a Selic elevada responde por isso.
O Gini domiciliar per capita subiu de 0,504 em 2024 para 0,511 em 2025. Segue bem abaixo de 2019, mas subiu, sinal de que o ciclo de melhora precisa de fôlego novo.
E o patamar continua modesto: R$ 3.367 equivalem a pouco mais de dois salários mínimos. A média de 2025 está 12,8% acima da de 2012, treze anos atrás. O Brasil recuperou o terreno perdido e avançou. Não se transformou.
Nada disso desmente o que foi feito. Delimita o tamanho da tarefa restante, que não é pequena.
O que não se sustenta é a versão de que nada mudou. Mudou, está aferido, e quem afere é o mesmo instituto que a grande imprensa cita sem hesitar quando o resultado desagrada ao Planalto.
Fica o registro para quem escreve, para quem lê e, sobretudo, para quem vota: no Brasil, a estatística pública raramente mente. Quem edita é que escolhe o que você vai enxergar.

